Este é um espaço de divulgação, discussão e reflexão acerca dos mais variados e distintos textos, verbais ou não. Afinal, a literatura e a língua estão expressas sob diversas formas, que nos conduzem ao conhecimento, inclusive de nós mesmos. Bem vindo!

segunda-feira, 6 de junho de 2011

O amor comeu...

Os Três Mal-Amados

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

João Cabral de Melo Neto

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Cantiga de Amor

Iria publicar um texto de auto-ajuda, mas vamos falar sério por aqui, discutindo um pouco de literatura.
A canção que será mostrada chama-se "Margarida", do grupo Roupa Nova, que eu adoro, e ela apresenta um caratér literário interessante para os professores de literatura e àqueles que se sentem fascinados pelas letras. Ouçam...


Analisando-a sob a perspectiva de uma cantiga (lembram-se do Trovadorismo?) , a mesma pode ser considerada uma Cantiga de Amor.
Primeiro, quem fala na cantiga é o homem. Este é um vassalo, alguém de uma classe inferior à da dama da corte e, por isso chamada de rainha. 
Estes termos também nos remetem, impreterivelmente, a um ambiente cortês, com castelos, reis e princesas. O homem desvenda sua coita, a dor de amar e não ser correspondido; o amor é idealizado, pois a dama é uma mulher casada. 
Esta mulher seria como a Virgem Maria, devido ao seu ideal de pureza e castidade.
Na canção, mas a título de análise para a época (século XII) a consideremos como cantiga, há a presença da dor, do sofrimento psicológico do homem ao ver sua dama rejeitar o amor que ele lhe oferta. 
A dama está em seu castelo, pois não quer ficar com um vassalo, um empregado da corte, pois este não tem tantos recursos quanto o marido daquela. 
A palavra pedra apresenta caráter metafórico, pois representa os desafios ofertados pelo amor à dama, e não o fato de o cavaleiro retirar pedras de um castelo, como haveria de supormos.  A senhora o evita. 
A diferença desta cantiga, com as produzidas na época do Trovadorismo português, é que esta, uma canção moderna, apresenta final feliz ao cavaleiro. 
No entanto, não se esqueça: o sentimento predominante na cantiga é o da rejeição por parte da mulher, e de luta e coragem, por parte do homem.
Quando vocês ouvirem músicas sertanejas, caso ouçam, percebam nas mesmas o sentimento predominante. Na maioria dos casos, é o sentimento visto na cantiga de amor, pois é um amor que fere, machuca e destrói. Mas mesmo assim, o eu-lírico ( voz que fala no poema ou cantiga), sente-se satisfeito em cantar ou exaltar essa dor.

quarta-feira, 1 de junho de 2011


Memória
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido

contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis

tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas

muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Recomeço...

"De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro".

Fernando Sabino 

domingo, 29 de maio de 2011

Cuidado com os Vampiros!

    Fico a imaginar o quanto a vida poderia ser melhor, se todos os seres humanos convivessem pacificamente. Linda essa hipótese, mas é uma utopia. Nós até tentamos ser agradáveis àqueles que não gostamos, evitando-os; e assim, a convivência é boa, pois não os vemos. No entanto, alguns insistem em forçar a barra, um sentimento que não existe. 
     Lutamos nesses momentos para tratá-los com cortesia, afinal, o fato de não gostarmos da pessoa, não nos dá o direito de tratá-la com desprezo. É isso que faço com minhas inimizades, poucas, raras... No entanto, quando este alguém diz coisas que não condizem com aquilo que sentimos e com nosso agir, se torna  muito difícil manter a paz e a tranquilidade. 
     Por isso, gostaria de dizer: não admito que pessoas que não me interessam , que não me tocam, que são insignificantes, pois não me acrescentam em nada, opinem sobre a minha conduta. Luto para ser uma pessoa verdadeira e honesta, em primeiro lugar, comigo mesmo. Portanto, estes vampiros, prefiro nomeá-los assim,  não têm o direito de falar a meu respeito o que eles desconhecem. 
     Tomara a pessoa que mereça ler este texto, o descubra e o leia. Foi pensado especialmente para ela, já que é um vampiro. Tentou me sugar muitas vezes, e tenta até os dias de hoje, apesar de nosso contato ser quase inexistente. 
     E ao me encontrar novamente, seja em qual lugar for, por favor, não me cumprimente. Eu evito aqueles que me fazem mal, pois vivo para o bem e para ser feliz!

 VAMPIROS

      Eu não acredito em gnomos ou duendes, mas vampiros existem. Fique ligado, eles podem estar numa sala de bate-papo virtual, no balcão de um bar, no estacionamento de um shopping. Vampiros e vampiras aproximam-se com uma conversa fiada, pedem seu telefone, ligam no outro dia, convidam para um cinema. Quando você menos espera, está entregando a eles seu rico pescocinho e mais. Este "mais" você vai acabar descobrindo o que é com o tempo.  
      Vampiros tratam você muito bem, têm muita cultura, presença de espírito e conhecimento da vida. Você fica certo que conheceu uma pessoa especial. Custa a se dar conta de que eles são vampiros, parecem gente. Até que começam a sugar você. Sugam todinho o seu amor, sugam sua confiança, sugam sua tolerância, sugam sua fé, sugam seu tempo, sugam suas ilusões. Vampiros deixam você murchinha, chupam até a última gota. Um belo dia você descobre que nunca recebeu nada em troca, que amou pelos dois, que foi sempre um ombro amigo, que sempre esteve à disposição, e sofreu tão solitariamente que hoje se encontra aí, mais carniça do que carne.
      Esta é uma historinha de terror que se repete ano após ano, por séculos. Relações vampirescas: o morcegão surge com uma carinha de fome e cansaço, como se não tivesse dormido a noite toda, e você se oferece para uma conversa, um abraço, uma força. Aí ele se revitaliza e bate as asinhas. Acontece em São Paulo, Manaus, Recife, Florianópolis, em todo lugar, não só na Transilvânia. E ocorre também entre amigos, entre colegas de trabalho, entre familiares, não só nas relações de amor.
      Doe sangue para hospitais. Dê seu sangue por um projeto de vida, por um sonho. Mas não doe para aqueles que sempre, sempre, sempre vão lhe pedir mais e lhe retribuir jamais.

Martha Medeiros

Carpe dien*

 O Tempo

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê, passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

Mário Quintana.

* Significa aproveitar o dia, o momento.
O quadro supracitado chama-se "A persistência da memória", do pintor Salvador Dalí.

sábado, 28 de maio de 2011

Apesar de...

 "... uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive, muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, espararei quanto tempo for preciso."

Clarice Lispector