Este é um espaço de divulgação, discussão e reflexão acerca dos mais variados e distintos textos, verbais ou não. Afinal, a literatura e a língua estão expressas sob diversas formas, que nos conduzem ao conhecimento, inclusive de nós mesmos. Bem vindo!

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Semelhante à lua

Meu eu atravessa muitas fases, de alegrias, flores, contentamentos, pensamentos avassaladores, insanos, loucos... ufa! E é essa inconstância que me faz incompleto. À procura de algo que não sei o quê, nem onde perdi. Não sou super-herói, nem tenho fórmulas mágicas para ser feliz, apenas deixo para chorar no travesseiro.  



LUA ADVERSA

Tenho fases, como a lua

Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,

no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia

seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

Cecília Meireles

domingo, 12 de junho de 2011

Perguntas e respostas para um caderno escolar

 
-Qual é a coisa mais antiga do mundo?
-Poderia dizer que é Deus que sempre existiu.
-Qual é a coisa mais bela?
-O instante de inspiração.
-E Deus quando criou o Universo não o fez no momento de sua maior inspiração?
-O Universo sempre existiu. O Cosmos é Deus.
-Qual das coisas é a maior?
-O amor, que é o maior dos mistérios.
-Das coisas qual é a mais constante?
-O medo. Que pena que eu não possa responder: é a esperança.
-Qual é o melhor dos sentimentos?
-O de amar e ao mesmo tempo ser amada, o que parece apenas um lugar-comum mas é uma das minhas verdades.
-Qual é o sentimento mais rápido?
- O sentimento mais rápido, que chega a ser apenas um fulgor, é o instante em que um homem e uma mulher sentem um no outro a promessa de um grande amor.
-Qual é a mais forte das coisas?
-O instinto de ser.
-O que é mais fácil de se fazer?
-Existir, depois que passa o medo.
-Qual é a coisa mais difícil de realizar?
-A própria relativa felicidade que vem do conhecimento de si mesmo.
(Depois as perguntas se tornaram mais complicadas).

( LISPECTOR, Clarice. In: A descoberta do mundo, 1984, 478-9p).
 

Cérebro de pobre funciona pior.

Cérebro de pobre funciona pior do que cérebro  de rico. Ouvi esta afirmação hoje e descobri que ela foi tema de mestrado. Bem, ela nos leva a perceber que ambos não funcionam bem, todavia, o de pobre, funciona pior.
Mas quais seriam as razões para tal? As justificativas começam no início da vida, na alimentação. 
Rico dispõe de mais dinheiro e, por isso, tem como comprar mais frutas, verduras e outros alimentos ricos em nutrientes e fibras. Pobre, consegue, infelizmente, muitas vezes a duras penas, somente o arroz e o feijão. Isso quando tem arroz e feijão no prato dos filhos.
Neurocientistas da Universidade da Califórnia mediram a atividade cerebral de crianças pobres, submetidas a testes de lógica, em comparação com a de crianças ricas. Resultado: a região do córtex pré-frontal, relevante para solução de problemas, funciona pior entre os mais pobres.
Os pesquisadores comentam que o problema não é necessariamente a pobreza, mas a falta de estímulos (livros, brincadeiras, museus, exposições) que as crianças sofrem em suas casas. E, com isso, deixam de desenvolver uma área do cérebro decisiva para que prosperem na escola e, mais tarde, no trabalho. Em suma, fica comprometida a criatividade.
Na fase adulta, isso pode ser explicado devido ao nível de stress e aborrecimentos que as classes sociais supracitadas apresentam.
Pobre tem um maior número de problemas, ocasionando a perda de concentração e, consequentemente, o mau funcionamento do cérebro.
O rico, por sua vez, apresenta talvez os mesmos problemas e preocupações, inclusive financeiros, mas estes, por serem solucionados com dinheiro, possibilita ao rico um cérebro mais desenvolvido e o não esquecimento com frequência de seus deveres cotidianos.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Mutabilidade e Imutabilidade Linguística

Estava assistindo este vídeo, engraçadíssimo, no blog do meu amigo Dhiogo e pensei em um processo linguístico. Assista...


A princípio, o vídeo é muito engraçado, em decorrência do uso da palavra night bruique ( deve ser assim que se escreve), pela moça.
Engraçado também pelo contexto do programa, que a gente já espera barraco e bate-boca.  
No entanto, analisando-o sob uma perspectiva linguística, ciência que estuda os fenômenos da língua, devemos considerar que houve aí um processo de mutabilidade e imutabilidade linguística. 
Neste caso, ocorreu a Mutabilidade de Significante, que é a imagem acústica e visual da palavra, o som. Assim, night bruique remeteu o público a uma associação com a palavra Net Book, e o "erro" na fala da convidada, gerou o riso.
O significante, a forma como se escreve, mudou, mas não alterou o significado etimológico da mesma: um computador. Significado é aquilo que está dicionarizado, é o que a palavra quer dizer, o conceito, o que a mesma nos remete.  Assim, houve imutabilidade de significado, ou seja, o conceito dado à palavra não sofreu variação. Night Bruique continuou remetendo a quem ouve e a quem fala, o computador.  Entretanto, o significante mudou. 
A língua, como uma ciência da comunicação, está sujeita a variações na fala, por meio da linguagem, que é a expressão do pensamento nos mais variados contextos sociais, econômicos e políticos.
Inúmeras palavras que utilizamos hoje para nos comunicarmos, sofreu processos semelhantes ao descrito acima. O você, que utilizamos no tratamento corriqueiro com as pessoas, é originário da palavra vossa mercê, que com o passar do tempo, por um processo de redução, se transformou em vosmecê, depois em você, ocê e agora, já virou cê. Assim, ocorreu neste a Mutabilidade de significante e Imutabilidade de significado.
A imagem acústica e visual que temos da palavra se modificou ( significante), mas o significado não alterou, pois continua a conceituar a terceira pessoa, com quem se fala.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

O amor comeu...

Os Três Mal-Amados

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

João Cabral de Melo Neto

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Cantiga de Amor

Iria publicar um texto de auto-ajuda, mas vamos falar sério por aqui, discutindo um pouco de literatura.
A canção que será mostrada chama-se "Margarida", do grupo Roupa Nova, que eu adoro, e ela apresenta um caratér literário interessante para os professores de literatura e àqueles que se sentem fascinados pelas letras. Ouçam...


Analisando-a sob a perspectiva de uma cantiga (lembram-se do Trovadorismo?) , a mesma pode ser considerada uma Cantiga de Amor.
Primeiro, quem fala na cantiga é o homem. Este é um vassalo, alguém de uma classe inferior à da dama da corte e, por isso chamada de rainha. 
Estes termos também nos remetem, impreterivelmente, a um ambiente cortês, com castelos, reis e princesas. O homem desvenda sua coita, a dor de amar e não ser correspondido; o amor é idealizado, pois a dama é uma mulher casada. 
Esta mulher seria como a Virgem Maria, devido ao seu ideal de pureza e castidade.
Na canção, mas a título de análise para a época (século XII) a consideremos como cantiga, há a presença da dor, do sofrimento psicológico do homem ao ver sua dama rejeitar o amor que ele lhe oferta. 
A dama está em seu castelo, pois não quer ficar com um vassalo, um empregado da corte, pois este não tem tantos recursos quanto o marido daquela. 
A palavra pedra apresenta caráter metafórico, pois representa os desafios ofertados pelo amor à dama, e não o fato de o cavaleiro retirar pedras de um castelo, como haveria de supormos.  A senhora o evita. 
A diferença desta cantiga, com as produzidas na época do Trovadorismo português, é que esta, uma canção moderna, apresenta final feliz ao cavaleiro. 
No entanto, não se esqueça: o sentimento predominante na cantiga é o da rejeição por parte da mulher, e de luta e coragem, por parte do homem.
Quando vocês ouvirem músicas sertanejas, caso ouçam, percebam nas mesmas o sentimento predominante. Na maioria dos casos, é o sentimento visto na cantiga de amor, pois é um amor que fere, machuca e destrói. Mas mesmo assim, o eu-lírico ( voz que fala no poema ou cantiga), sente-se satisfeito em cantar ou exaltar essa dor.

quarta-feira, 1 de junho de 2011


Memória
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido

contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis

tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas

muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade